Sabe, o problema nem é crescer, essa é a parte fácil. Basta deixar o tempo seguir seu curso e te arrastar junto. Crescer não é mais que isso: ganhar centímetros. Difícil é amadurecer, ser relevante para o que te cerca. Trabalhar não parece suficiente, nem ser esponsável, bom aluno, bom filho, saber o que quer da vida. Tem um algo a mais se escondendo por aí, em tudo o que não se fez ou que não se sabe que pode ser feito.
Fosse outro tempo, era mais fácil. Você passava por um rito de passagem, matava um bicho grande, sei lá, e casava aos dezesseis. Pronto. Comida, abrigo, companhia e propósito de existência, tudo mais fácil. E só doía uma vez.
Agora é outra história. Parece que a sofisticação do mundo moderno tem muito a ver com diluir venenos. Diluíram a dor de crescer em vários anos, um despertar longo e algo doloroso. Quando você acha que já passou a parte desagradável de levar foras, descobre que há o sexo. Quando toma a consciência de que é importante estudar e se conforma a oito anos de escola, descobre que ainda vai passar por uma faculdade e trabalhar e se foder, de maneira geral.
Não que crescer seja ruim em si, é bem legal, às vezes- você acaba descobrindo que sexo é muito bacana e as garotas que não te dão fora podem ser bem mais legais que as que dão. Que responder por seus atos é melhor e mais gratificante do que se pensa e que ser uma pessoa boa tem mais a ver com ser gentil com os outros que ir à Igreja todo domingo. Mas é preciso ir de cabeça erguida, com vontade de trabalhar.
É só que tem tanta coisa faltando, coisas que eu achava (ainda acho) importantes. Parar e estar, encontrando o maravilhoso nas brechas da (pós?) modernidade. Anda tão difícil ser, estar, sem mais que isso. Ficar parado é contra a ética protestante (que, longe de protestar, somente perpetua). Queria não me sentir ficando pra trás. Ser feliz sem me exigir, ter direito de ser quem quero sem ter que competir com ninguém.
Os tempos mudaram muito. Matar um bicho grande, hoje, seria um dilema ético, anti-ambientalista. Ninguém mais casa aos dezesseis (mas engravida-se muito). Ritos, só há os de conforto. Quem quer a dor, no fim das contas?
Mas nem era isso que eu queria dizer…