Arquivo da categoria ‘Contos de amor rasgados’

Prólogo

Abril 16, 2008

Márcio diz:
se tu não for por causa disso, vai ficar chateada porque, vê só, é uma coisa que tu não fez por causa da tua mãe. Isso vai ficar em ti, vai crescer e se transformar numa raivinha assim, de impaciência, que pode crescer e crescer e crescer… um dia todas as raivinhas podem se juntar e explodir e acabar com a relação tão bonita de vocês
Keka. diz:
oO’
Márcio diz:
mas se você for, vai ficar tão feliz e contente que nem vai ligar pras coisas que ela vai dizer
Márcio diz:
na verdade, vai achá-la bonita e legal e, boa mulher, está só preocupada contigo
Márcio diz:
aí vocês vão ser felizes pra sempre
Márcio diz:
(e eu vou pro inferno por fazer esse papel de cão)
Keka. diz:
ai, ai.. tu é muito queixudo, viu? tsc tsc

___
tudo tem um começo mais ou menos sem-querer

Ansiedade

Janeiro 22, 2008

Quero escrever um poema que tenha somente o começo
e se estenda em significados pelo infinito.
Que carregue em si o frio de nervoso
na barriga e aquela inebriante ansiedade
obsessiva que dá antes de se saber no chão.
Meu poema terá em si o mistério dos olhos cegos
e a intenção dos que se escondem atrás de óculos escuros
e a dúvida do toque, talvez acidental, dos joelhos que se encontram.
Terá sabor de insônia e o som da ilusão
(algo como vidro em solo de clarineta)
e um travo de desespero em suspensão.
Ah, sim, meu poema será belo como nunca houve
porque, de fato, não há de existir.
Meu poema é o que se espera
feito de ânsia e fome e promessa
é a carta que nunca chega
é o corpo que nunca pesa

meu poema é terrível por ser morte e doce por ser amante
é ansiedade

Rainha do Lar

Janeiro 15, 2008

Saía o marido para o trabalho e ela se estendia lânguida no próprio tédio. Entre as paredes da grande casa, passava os dias, todos lhe parecendo uma grande tarde modorrenta. No início não era assim: tinha um pequeno jardim nos fundos, o longo gramado na entrada, sabia os pratos favoritos do marido e os preparava com carinho; cuidava, enfim de seu lar. Mas a vida de dona-de-casa não agradava e logo veio a primeira empregada. Depois, o jardineiro, para cuidar da grama onde nunca mais ninguém sentaria. Então a cozinheira, que sempre errava a mão no sal e arrancava diários resmungos do patrão.

Sem o serviço de casa, ela trocou as crises domésticas pelas existencias. Lia revistas sobre roupas de grife e vida simples, espiritualidade e orgasmos. Fazia yoga e relaxamento e, nos fins-de-semana, quebrava dietas e ia ao shopping. Com o passar do tempo, porém, deixou-se deslizar ao fundo da profunda letargia que a rodeava. Passava seus dias deitada em meio a correria dos empregados, distribuindo ordens e gerindo a casa como uma rainha. Contratou homens para preparar seu banho de leite e dar-lhe prazer, e mulheres para cobrir com lençois de seda a grande cama onde deitava-se com os amantes e preparar ricas iguarias que lhe matassem a fome. Saía de seu mundo particular de luxúria apenas para receber o marido, não sem enfado, na chegada do trabalho.

Até o dia em que mandou cortar a cabeça de uma das criadas, por não se curvar em sua presença. Quando o marido chegou em casa, à noite, encontrou a guilhotina a sua espera. Ordens da rainha-mãe da monarquia recém-instaurada.

Fossem reais os pixels…

Dezembro 18, 2007

Não era sua intenção. De verdade. Nem achava coisa assim possível, gostar tanto de uma estranha. Afinal, ela não era mais que um ícone na tela, um enigma. Existia mais em sua cabeça que num real mundo físico. Quis pôr a culpa na suposta sincronicidade que lhe guiou por acaso o olhar até a foto dela, maldizer a vontade de conhecê-la que o assaltou naquele instante. Mas não pôde. A ânsia que doía no peito era dor boa. Sofrer lento de amor apenas imaginado, que chega dava arrepio no avesso.

De qualquer forma, era culpa do sorriso. Um sorriso de rosto inteiro (boca, olho, queixo) que puxava desapiedado o olho dos desavisados pra nunca mais. Tudo se perdia ali, tudo se resumia- alínea ao lado do ponto final, com todo o infinito no meio- no sorriso. Feito o Big-bang.

Quando se falaram a primeira vez (ele fingiu que a conhecia de algum lugar, mas era desculpa), era nada ainda. Frases soltas para passar o tempo. Porém, logo se acostumou àquelas conversas, a enviar galanteios velados e a conferir som aos risos somente escritos- e ela ria muito. Agradava-lhe o escudo da tela, a fascinação de criá-la aos pedaços. Gostar dela, concluiu, era como escrever um romance. Cada linha enviada criando um pouco de vida. Foi se apaixonando aos poucos.

Agora já nem sabia mais que era aquilo, mistura de vontade de vê-la com medo. Medo de quê? De sabê-la gente, mostrar-se gente. Era mais inteligente escrevendo, tinha certeza, saía tudo mais fácil. Frente a frente, corpo em desalinho, fala hesitante, decerto a perderia. Perder o quê, homem de Deus?! Ela era a qualquer coisa de eterno do amor romântico, a amada no alto da torre de cristal. Era toda possibilidade, não mais que isso: uma expectativa perpétua, nunca frustrada e nem tampouco concretizada.

Rota de fuga, ele bem sabia. Coisa de maluco mesmo. Mas sentia-se desenganado. Às vezes, dava-se conta de que moravam os dois na mesma cidade e, de repente, ela era a cidade inteira. Em cada rosto havia um pouco do sorriso da tela, em cada transeunte, a presença possível e irreal certeza. Sabia lá onde ela morava, se pegavam o mesmo ônibus (ou andaria de carro?), se freqüentavam os mesmos lugares…. Sabia lá se não a perderia caso olhasse para o outro lado no sinal fechado.

Procurava instintivamente por cima dos ombros um sorriso que o afogasse. Quando conversavam (ele se conectava para esperá-la e fingir ser o acaso), perguntava sobre ela, afim de absorvê-la. Fazia-se amável, compreensível, até deslizar sorrateiramente a intimidade. Contava o tempo que ela demorava para responder, enciumado. Perguntava-se quantas outras janelas a esperavam, para quem mais ela se exibiria, para quem mais riria em letras maiúsculas, sem pudor. Como podia simplesmente não ser só dele? Não percebia nada?

Até que, uma noite, ela não apareceu. Esperou-a por muito tempo, consciência acesa na madrugada, olhando sem ver as miudezas que acessava só para ter o que fazer. Conjurou demônios, imaginou impropérios, quis esquecê-la, matá-la, possuí-la à exaustão. Imaginava- a, vestido preto, cabelo solto, um vício qualquer na mãos, saindo a noite, vivendo uma implausível, imperdoável vida onde ele não aparecia. Insônia mortal, cravejada de ódio. Quando a viu conectar-se, o nome piscando as 3 da manhã, quis puní-la. Foi frio.

“oi.” “oiiii.” “tô saindo.”

Arrependeu-se na mesma hora. E se… não sei. E se ela fosse mesmo inocente, se não fizera nada demais? Fosse coisa da cabeça dele, estaria sendo um tirano. Ela poderia estar simplesmente vendo TV, estudando, dormindo. Decerto sentiria falta dele e, sem saber de que era culpada, se magoaria. Claro. Ele que era um imbecil.

Para se redimir, criou coragem e marcou um encontro. Dia tal, hora tal, ele de camisa verde, ela usando um par de covinhas no rosto. Era uma terça-feira, acho, e os dois se viram ao mesmo tempo. Ao ver o sorriso nervoso, ele quis falar de seu amor, de seu ódio, das noites insones e quilos perdidos. Mas conteve-se. Conversaram longo tempo de banalidades, sem saber o que fazer com as mãos ou onde pousar os olhos. Quando se despediram, tardezinha (“te mando um scrap”), sentia-se leve como há muito não sentia.

Naquela noite, viu o nome dela piscar na tela. “Just signed in”. Clique. Block contact. Clique. Ela teria que entender, não dava certo. Ela não era bem o que ele imaginava.

“Como diria o cantor de bolero”

Dezembro 10, 2007

Há tanto tempo foste embora
e ainda estou toda hora a tua roda
no fundo do poço
é osso, é foda

É difícil te perder.
Sei,
“I will survive”
mas
vê se não vais me esquecer

Não era pra ser assim-
olha pra mim, não me evites.
Não me deixe aqui sozinho
com esse vazio e a gastrite.

Dezembro 9, 2007

Eu gosto de gatos. Ela, de cães. Isso deveria significar alguma coisa. Não, não é que deveria. É só o tipo de coisa que as pessoas esperam que signifique algo. Mas são elas, as pessoas, que significam tudo. Sei lá.

Na hora, nem pensei direito. Cães, gatos… que diferença? Só sentia o calor dela, perto de mim, e lembrava de asfalto. “Quente como asfalto”. Acho que é uma música. Minha mão displicentemente jogada sobre o joelho, quase alcançando o seio vestido. Como seria calor de asfalto? Aquele que sobe pela perna, parece te envolver como uma redoma de ar quente e não te deixa ficar parado muito tempo. Calor de inferno.

É, de certa forma, ela parecia com o asfalto. Era áspera, a sua maneira, e tinha algo de inevitável. Como o chão enegrecido de piche. Como uma queda brusca. Cães e gatos. Talvez isso queira dizer alguma coisa, mas não consigo pensar o quê. É impossível. O calor dela, galvanizado em perfume, parece me envolver como uma redoma. De repente ficou difícil respirar.

Dezembro 2, 2007

De uma ponta a outra da carne
Me perdendo no escuro dos dedos
Te sentindo tão perto do gozo…
Chego a achar que a brecha que abres
No prazer seja fresta pra alma
Passagem a algo de essência.

 

Mas pra dentro só há superfície
E teu cerne se esconde na casca
Do que, ao fim, é só mais um corpo.

Vai saber…

Novembro 14, 2007

Moro num mundo maior que a minha cabeça
Mas tão pequeno que cabe num namoro de calçada
Tantas pessoas… Meu bem, não esqueça
Que há espaço bastante pro Ser e o Nada.

Queria estar agora ao teu lado
Feito antes, em ti me perder
Nosso futuro desfez-se em passado
Mas um último instante guardei pra você
Pra poder te dizer:
“Je suis vraimont desolée”

Moro num mundo maior que você
Mas tão pequeno que não te contém
Tantas pessoas… brailes a ler
Pois tudo se estende dos olhos pr’além

Eu, lírico

Novembro 1, 2007
De repente me ocorreu que o mundo anda precisando de mais finais felizes de verdade. Não aqueles dos filmes, mas os que acontecem quando duas (ou mais) pessoas resolvem se unir e tentar construir um bom relacionamento. Sem tanto glamour e com algumas tristezas pelo caminho.
Esse vai p’ra Roberta, porque ela respondeu, e p’ra Tainara, que, apesar de não achar maravilhoso, gostou mesmo assim ;)

 

Ele arrumou o cabelo, ela viu com o canto do olho. Ele colocou a franja no lugar- p’ra cima, que achava bonito o despenteado- olhou em volta, feito estivesse perdido, e de repente cravou nela o olhar, feito tivesse encontrado. Mas ela fingia não notar nada. Olhava para frente só, esperando, sentindo ele tomar coragem.

Os dois estavam num banco da praça, mochilas postas de lado, um comecinho de fome batendo (que era quase hora do almoço). Haviam saído do colégio há um tempo já. Não se percebia a volta mais nenhum estudante uniformizado. Ela o viu brincando com a grama, arrancando lâminas de capim. Procurava flor, será? Besteira; ela que era boba, boba. Um velhinho passou, carregado de sacolas.

Agora ele é quem fixava o olhar longe, fingindo não saber que ela o esperava. O assunto entre os dois se esgotara há muito. Tudo o que faltava p’ra ser dizer era justamente o que não podia ser dito. As palavras enganchavam na garganta, embolando lá por dentro, se atrapalhando todas e deixando sair só um silenciozinho que parecia suspiro.

De certa forma, era um silêncio condizente, de palavra suspensa. Afinal, também a cidade parecia prender a respiração, na malemolência do meio-dia, no ar parado sob as árvores, no calor do asfalto. Ela sentiu o gosto de fome e ficou com medo de beijar com mau-hálito.

Silêncio de ânsia. Ela o viu pegar a mochila e abrir, fingir procurar alguma coisa e fechar de novo. Por fim, pareceu se decidir.

-Hã…- ele começou, levantando.- Olha, já tá tarde. É melhor a gente…

Ela o pegou pela mão e o fez sentar de novo, sem encontrar resistência. E esperou só mais um pouco, boba que era, pelo beijo trêmulo.

Virtual Sex

Outubro 27, 2007

Na janela de chat, o homem peca. Goza só, num abraço oco sem carne alguma a conjugar, tocando com lascívia o teclado. Do outro lado, em outra tela, outro corpo também goza. Homem, mulher, como saber? Não estão de fato conectados, só existem na cabeça um do outro. O outro nem existe. Na verdade, amaram a própria solidão, o próprio corpo e uma ilusão que, apesar de vir de fora, foi criada em suas próprias mentes.

Há pecado, desse modo? Não sabe. Mas sente a culpa corroendo a alma ao ver a webcam lhe encarando fria, como o olho de Deus.