Não era sua intenção. De verdade. Nem achava coisa assim possível, gostar tanto de uma estranha. Afinal, ela não era mais que um ícone na tela, um enigma. Existia mais em sua cabeça que num real mundo físico. Quis pôr a culpa na suposta sincronicidade que lhe guiou por acaso o olhar até a foto dela, maldizer a vontade de conhecê-la que o assaltou naquele instante. Mas não pôde. A ânsia que doía no peito era dor boa. Sofrer lento de amor apenas imaginado, que chega dava arrepio no avesso.
De qualquer forma, era culpa do sorriso. Um sorriso de rosto inteiro (boca, olho, queixo) que puxava desapiedado o olho dos desavisados pra nunca mais. Tudo se perdia ali, tudo se resumia- alínea ao lado do ponto final, com todo o infinito no meio- no sorriso. Feito o Big-bang.
Quando se falaram a primeira vez (ele fingiu que a conhecia de algum lugar, mas era desculpa), era nada ainda. Frases soltas para passar o tempo. Porém, logo se acostumou àquelas conversas, a enviar galanteios velados e a conferir som aos risos somente escritos- e ela ria muito. Agradava-lhe o escudo da tela, a fascinação de criá-la aos pedaços. Gostar dela, concluiu, era como escrever um romance. Cada linha enviada criando um pouco de vida. Foi se apaixonando aos poucos.
Agora já nem sabia mais que era aquilo, mistura de vontade de vê-la com medo. Medo de quê? De sabê-la gente, mostrar-se gente. Era mais inteligente escrevendo, tinha certeza, saía tudo mais fácil. Frente a frente, corpo em desalinho, fala hesitante, decerto a perderia. Perder o quê, homem de Deus?! Ela era a qualquer coisa de eterno do amor romântico, a amada no alto da torre de cristal. Era toda possibilidade, não mais que isso: uma expectativa perpétua, nunca frustrada e nem tampouco concretizada.
Rota de fuga, ele bem sabia. Coisa de maluco mesmo. Mas sentia-se desenganado. Às vezes, dava-se conta de que moravam os dois na mesma cidade e, de repente, ela era a cidade inteira. Em cada rosto havia um pouco do sorriso da tela, em cada transeunte, a presença possível e irreal certeza. Sabia lá onde ela morava, se pegavam o mesmo ônibus (ou andaria de carro?), se freqüentavam os mesmos lugares…. Sabia lá se não a perderia caso olhasse para o outro lado no sinal fechado.
Procurava instintivamente por cima dos ombros um sorriso que o afogasse. Quando conversavam (ele se conectava para esperá-la e fingir ser o acaso), perguntava sobre ela, afim de absorvê-la. Fazia-se amável, compreensível, até deslizar sorrateiramente a intimidade. Contava o tempo que ela demorava para responder, enciumado. Perguntava-se quantas outras janelas a esperavam, para quem mais ela se exibiria, para quem mais riria em letras maiúsculas, sem pudor. Como podia simplesmente não ser só dele? Não percebia nada?
Até que, uma noite, ela não apareceu. Esperou-a por muito tempo, consciência acesa na madrugada, olhando sem ver as miudezas que acessava só para ter o que fazer. Conjurou demônios, imaginou impropérios, quis esquecê-la, matá-la, possuí-la à exaustão. Imaginava- a, vestido preto, cabelo solto, um vício qualquer na mãos, saindo a noite, vivendo uma implausível, imperdoável vida onde ele não aparecia. Insônia mortal, cravejada de ódio. Quando a viu conectar-se, o nome piscando as 3 da manhã, quis puní-la. Foi frio.
“oi.” “oiiii.” “tô saindo.”
Arrependeu-se na mesma hora. E se… não sei. E se ela fosse mesmo inocente, se não fizera nada demais? Fosse coisa da cabeça dele, estaria sendo um tirano. Ela poderia estar simplesmente vendo TV, estudando, dormindo. Decerto sentiria falta dele e, sem saber de que era culpada, se magoaria. Claro. Ele que era um imbecil.
Para se redimir, criou coragem e marcou um encontro. Dia tal, hora tal, ele de camisa verde, ela usando um par de covinhas no rosto. Era uma terça-feira, acho, e os dois se viram ao mesmo tempo. Ao ver o sorriso nervoso, ele quis falar de seu amor, de seu ódio, das noites insones e quilos perdidos. Mas conteve-se. Conversaram longo tempo de banalidades, sem saber o que fazer com as mãos ou onde pousar os olhos. Quando se despediram, tardezinha (“te mando um scrap”), sentia-se leve como há muito não sentia.
Naquela noite, viu o nome dela piscar na tela. “Just signed in”. Clique. Block contact. Clique. Ela teria que entender, não dava certo. Ela não era bem o que ele imaginava.