“alana says:
se ela num quiser, tu vai-se embora comigo
e a gente casa um drive-thru em las vegas”
sei lá o que eu faria sem ela
“alana says:
se ela num quiser, tu vai-se embora comigo
e a gente casa um drive-thru em las vegas”
sei lá o que eu faria sem ela
-Ó, aquele ali é Saturno.
-Aquele com os anéis?
-É.
-…
-Bonito, né?
-Parece uma logomarca!
-…
-…
-Putz! é mesmo!
Haverá época mais morgada que essa? Passadas a ceia e a dor-de-barriga do Natal, preparamo-nos para a ceia e indigestão do Ano Novo. Os estudantes já morgaram o começo das férias, os trabalhadores já xingaram o fim do trabalho, os buffets já riram bem alto.
Mas tem uma coisa, não sei se todo mundo reparou. Já notaram que o Natal é cada vez menos Natal? E o Ano Novo? Não quero parecer tradicionalista nem dizer nada que comece com “no meu tempo…”, mas está acontecendo um tipo de mudança de valores. Os feriados já se tornaram, há muito, desculpas para encher a cara e dormir muito. Esse é o caráter principal de todos eles. Tomemos, por exemplo, o natalício de Jesus: até aquele conjunto habitual de clichês (espírito natalino, Deus entre nós, paz e tudo o que nos empurravam infância abaixo nessa época), perdeu muito a força. Ficou tudo mais prático, mais consumível. Mudou alguma coisa ou minha visão é que mudou? Porque não lembro de ter ouvido no dia 25 nenhuma menção ao aniversariante do dia, mas muitas à neve e ao Papai Noel distribuindo presentes na América do Norte. Será que trocaram o motivo da festa e ninguém me avisou? Esse Natal foi o mais violento em dez anos. E a paz na Terra aos que acreditam no Senhor?
Sei não, deve ser a vida moderna… Durkhein disse que essas festas eram mecanismos para unir a sociedade, reafirmar os laços (citando de memória). Talvez a “desnatalização” do Natal seja um sinal de nosso individualismo pós-moderno (ou seja lá que nome dão a isso), ou simplesmente o modelo a ser seguido pela sociedade tenha se modificado para “mesa com peru, presentes e familiares entediados”. Do significado, nem sombra.
Agora é só esperar e ver se o Ano Novo segue o mesmo caminho ou se ainda existem coisas como promessas para o ano que vem e avaliação do ano que passou. Porque, você sabe, no meu tempo…
As Aventuras do Boneco de Palito, agora nesse blog aí de cima, ó.
Essa é da série “O Natal do Boneco de Palito”, em breve no zine Potóxico 3. Era pra sair antes do fim do ano, mas tem um material que não tá comigo… De qualquer modo, em janeiro sai! Depois posto as aventuras de final de ano do lado de cá.
- Mas, cara, o que mata meu espírito cristão são essas festas de Natal chatas com gente que eu vejo todos os dias falando as mesmas bobagens de sempre…
-Tem que ter paciência, não se irritar. Nessas horas tenta pensar o que Jesus faria.
-Ah, saquei…
-…
-Mas, vem cá, como é que ele fazia pra água virar vinho?
Sabe, o problema nem é crescer, essa é a parte fácil. Basta deixar o tempo seguir seu curso e te arrastar junto. Crescer não é mais que isso: ganhar centímetros. Difícil é amadurecer, ser relevante para o que te cerca. Trabalhar não parece suficiente, nem ser esponsável, bom aluno, bom filho, saber o que quer da vida. Tem um algo a mais se escondendo por aí, em tudo o que não se fez ou que não se sabe que pode ser feito.
Fosse outro tempo, era mais fácil. Você passava por um rito de passagem, matava um bicho grande, sei lá, e casava aos dezesseis. Pronto. Comida, abrigo, companhia e propósito de existência, tudo mais fácil. E só doía uma vez.
Agora é outra história. Parece que a sofisticação do mundo moderno tem muito a ver com diluir venenos. Diluíram a dor de crescer em vários anos, um despertar longo e algo doloroso. Quando você acha que já passou a parte desagradável de levar foras, descobre que há o sexo. Quando toma a consciência de que é importante estudar e se conforma a oito anos de escola, descobre que ainda vai passar por uma faculdade e trabalhar e se foder, de maneira geral.
Não que crescer seja ruim em si, é bem legal, às vezes- você acaba descobrindo que sexo é muito bacana e as garotas que não te dão fora podem ser bem mais legais que as que dão. Que responder por seus atos é melhor e mais gratificante do que se pensa e que ser uma pessoa boa tem mais a ver com ser gentil com os outros que ir à Igreja todo domingo. Mas é preciso ir de cabeça erguida, com vontade de trabalhar.
É só que tem tanta coisa faltando, coisas que eu achava (ainda acho) importantes. Parar e estar, encontrando o maravilhoso nas brechas da (pós?) modernidade. Anda tão difícil ser, estar, sem mais que isso. Ficar parado é contra a ética protestante (que, longe de protestar, somente perpetua). Queria não me sentir ficando pra trás. Ser feliz sem me exigir, ter direito de ser quem quero sem ter que competir com ninguém.
Os tempos mudaram muito. Matar um bicho grande, hoje, seria um dilema ético, anti-ambientalista. Ninguém mais casa aos dezesseis (mas engravida-se muito). Ritos, só há os de conforto. Quem quer a dor, no fim das contas?
Mas nem era isso que eu queria dizer…
Um dia, tomou uma decisão. Parou de reclamar da vida e de si mesmo, guardou todos os seus sonhos numa sacola de supermercado, trancou-se no quarto e se dedicou a procurar a luz no fim do túnel. Afinal, pensava, já era tempo de acharem a danada.
Primeiro, apagou todas as luzes, que é pra do fim do túnel não passar despercebida. Então saiu à cata, remexendo pessoas e papéis, prometendo só para quando a encontrasse.
Procurou primeiro junto aos grandes teóricos: consultou ensaios, análises, dissertações. Mas logo se decepcionou. Só encontrava teorias.
Então procurou junto aos artistas. Leu livros, viu filmes, ouviu canções e dialogou com idéias. Ficou um pouco mais animado, encontrou a esperança e a liberdade. Mas não era suficiente ainda- a esperança só faz sentido se houver algo a esperar e a liberdade não era mais que um instrumento. Aquestão não era bem essa ainda. Descobriu que o povo precisa de pão, além de poesia.
Decidiu partir para algo mais prático e foi atrás dos economistas. No início, se perdeu um pouco naquela sinalização confusa, cheia de setas, diagramas e indicadores econômicos; mas logo encontrou o que procurava. Ficou impressionado com a organização e objetividade dos dados: IDH em tantos pontos, renda média tal, felicidade a tal preço. Pensou que havia encontrado na Economia a luz do fim do túnel, porém, se viu novamente frustrado. Leu nos dados que túnel era furada, o setor de construção civil estava numa recessão brava. Luz, então, nem se fala: toda nas mãos das companhias estrangeiras, não dava nem pra chegar perto. Aprendeu que luz o fim do túnel é investimento arriscado, inviável com a queda do dólar.
Apesar disso, continuou procurando em todos os lugares, porém sem sucesso.
Tentou a religião, mas teve que fugir de um tiroteio entre fanáticos.
Tentou a oração silenciosa, mas desistiu quando percebeu o quão surpreso ficaria se recebesse uma resposta.
Tentou a política, mas só encontrou expectativas.
Tentou os bares, mas só encontrou desilusão.
Tentou até em si mesmo, mas assutava-o a metáfora que via no espelho.
E, da tal luz, nem fagulha. Até que, de repente, encontrou não a luz, mas o motivo por que não a encontrara. Estivera todo esse tempo trancado no quarto, pensando e pensando sozinho, com todas as luzes apagadas.
E se, pensou, fitando a porta, a luz estiver do lado de lá?
Foi quando tirou os sonhos do saco, saiu do quarto e viu o mundo se estendendo todo lá fora (grande que dava medo)- e lá, num cantinho, a luz do fim do túnel. Ele não conseguira encontrá-la porque deixara a porta fechada.
Como tudo, aconteceu num ônibus e, como tudo o que acontece em ônibus, aconteceu da cabeça pra dentro. A metade de um rosto. Eu a vi pela primeira vez numa brecha entre os corpos e cabeças do coletivo lotado. Os cabelos loiros, a testa retilínea e os olhos- oblíquos, mas não de cigana. Eram olhos de uma indagação indiferente- como quem vê a vida rodar com certa curiosidade enfadada.
Tentando encontrar um lugar na barreira compacta que eram os passageiros, não lhe dei atenção. Mas os olhos insistiam em me fitar e percebi como eram belos. O modo harmonioso como deitavam naquela nesga de rosto. Não eram sequer diferentes, verdes como o mar, azuis como o céu ou licença poética que valha. Eram olhos comuns que, recortados da face a que pertencem, ganhavam uma beleza totalmente nova e inesperada. Me atraía o segredo que guardavam.
Fascinado, especulava sobre o rosto que agora me intrigava. Como seriam seu nariz, sua boca, a curva de seu queixo? Teriam aquela beleza discreta que me chamara a atenção? Tentava, por trás das pessoas, vê-la melhor, mas, quando vislumbrava novamente seus olhos, minha visão era impedida pelo encosto da cadeira à sua frente. Eu não podia chegar mais perto, que ia descer logo.
Se sentássemos no mesmo banco, talvez nem reparasse nela. Seria só mais um passageiro, mais um rosto vazio no qual sequer deteria o olhar. Mas não, os olhos flutuantes me chamavam.
Assim que saltei do ônibus, busquei com o olhar sua janela e logo a encontrei. Indiferente ao mundo, a mão no queixo, apoiando a cabeça, cobria-lhe todo o rosto. Quando se foi, apenas os olhos ficaram em minha mente, oblíquos e, me parecia agora, guardando algo de ressaca.
Revirando os arquivos, encontrei esse relatório/tentativa de reportagem, que escrevi quando deu um surto de jornalista, no início do semestre. Só por curiosidade, aí vai.
Chegada à Rádio Verdes Mares prevista para as 14:30. Lembrar de usar calça e tênis dessa vez. Ouvidos atentos, olhos abertos e, nas mãos, o bloquinho para eventuais anotações. Após tanto ler sobre comunicação e publicidade em rádio, estava ansioso para conhecer tudo de perto.
De início, fomos conduzidos a uma grande sala, que parecia menor do que era por causa da grade que a dividia ao meio. Do lado de cá da grade, cadeiras verdes a nossa disposição. Do lado de lá, três mesas: uma repleta de microfones, uma grande mesa de som e a mesa alta com telefones (onze no total). À mesa dos microfones, o apresentador João Inácio Jr. lia com ímpeto uma grande mensagem sobre o pensamento positivo. Com ouvidos atentos, seu público deveria estar bebendo as palavras que fluíam do rádio- palavras de encorajamento, para suportar o trabalho pesado e as
dificuldades da vida. “Tudo vai dar certo”.A voz possante prendia a atenção. Logo, porém, o apresentador finda sua mensagem e entra no ar uma música de forró.
A sincronia com o técnico de som é incrível, não há nenhum momento de silêncio no programa e tampouco vozes se atropelando. A sincronia no rádio, já disse Ciro Pedroza, é
fundamental. Tudo tem que estar no devido lugar, no tempo exato. O silêncio angustia.
Vimos isso de forma fantástica com o radialista Beto Porto Alegre, a quem visitamos em seguida. Com habilidade surpreendente, é ele, sozinho, quem comanda o programa, locução e mesa de som. Multiplica-se ao conversar conosco, falar ao microfone com uma voz estrondosa, ler
suas pautas e inserir todos os sons e vinhetas no momento adequado. Fala sobre ser publicitário, nos0 deseja sorte. De rádio, conversamos pouco, vimos muito. Impressionante.
De volta ao estúdio do programa de João Inácio, o vemos- ou melhor, o ouvimos conversando com os ouvintes. Gente de voz simples que trata o locutor como amigo: lhe manda
abraços, sente a perda da Tigresa, morta durante uma lipoaspiração. O clima é de total intimidade; afinal, o rádio inventou a interatividade antes mesmo de ser inventado o próprio conceito. Os ouvintes brincam, interagem com o gaiato personagem “seu” Jereba, que serra chifres e distribui
abraços por trás, tudo usando de uma linguagem chula e um enxerimento de moleque. As ligações são para escolher a música do dia e trazem uma surpresa: a canção vencedora é um brega a moda antiga, de Baltazar. Algo diferente entre tantos forrós que ouvimos todos os dias.
Depois, João lê outra mensagem, mas não antes de fazer seus anúncios. A voz amiga, íntima de todos os dias, recomendando um produto como quem aconselha. O locutor confere credibilidade a propaganda. Impossível não lembrar do trabalho sobre os comerciais da a.m. Jingles,
testemunhais, peças de promoção… tudo ali, acontecendo fora do papel e além das teorias. Uma experiência e tanto ver uma rádio funcionando depois de tanto estudar sobre o assunto.
E, entre mensagens e comerciais, João transmite notícias. Nada mais que fofocas e ocorrências curiosas. Assim entretém seu público, com mensagens positivas e divertimento inócuo. Mass media? Provavelmente. Mas João não parece subestimar seus ouvintes. Pelo contrário, sua
atitude é de cumplicidade, como uma bobagem que se diz numa roda de amigos e não pretende mais que provocar risadas fáceis. Sem se falar em alienação. Lembro que o discurso de rádio é exatamente isso: espontaneidade. Um discurso artificialmente natural.
E João é bom nisso. Dividindo a cena com Regina e Cláudia, portadoras de notícias dos famosos, usa e abusa de “seu” Jereba, brinca com as mulheres e vai desenhando seu programa no improviso, impecavelmente sintonizado com o técnico de som. Talvez aí esteja a chave do comunicador de rádio. Talvez não seja tão artificial sua espontaneidade.
O programa vai até às quatro da tarde. João deixa o estúdio sob aplausos nossos. A despeito de qualquer discussão sobre alienação, é um grande comunicador. Levo comigo as lições
que consegui apreender assistindo sua atuação e as idéias que se vão enrodilhando em minha cabeça sobre trabalhar com rádio. Quem sabe, algum dia…
Remexendo por aí, encontrei o Firebrand. É um tipo de Youtube mantido por empresas que vai veicular somente comerciais, como se fossem clipes de música. É uma iniciativa arriscada, sem dúvida, que levanta uma discussão interessante.
Será que a publicidade, como andam dizendo por aí, finalmente atingiu um outro patamar? A propaganda já e parte da cultura pop e tem plena capacidade de atrair olhares para seu formato, mais que o produto. Mas será que podemos consumir um comercial como produto cultural (artístico?), independente da mensagem nele veiculada? Isso soa pós-moderno demais pra minha cabeça.
Mas as empresas realmente vão precisar criar bons comerciais, para chamra a atenção do internauta para sua marca e mesmo para a sobrevivência do portal.
Será que vai?
Fontes:
Blue Bus
Future Lab