Quero escrever um poema que tenha somente o começo
e se estenda em significados pelo infinito.
Que carregue em si o frio de nervoso
na barriga e aquela inebriante ansiedade
obsessiva que dá antes de se saber no chão.
Meu poema terá em si o mistério dos olhos cegos
e a intenção dos que se escondem atrás de óculos escuros
e a dúvida do toque, talvez acidental, dos joelhos que se encontram.
Terá sabor de insônia e o som da ilusão
(algo como vidro em solo de clarineta)
e um travo de desespero em suspensão.
Ah, sim, meu poema será belo como nunca houve
porque, de fato, não há de existir.
Meu poema é o que se espera
feito de ânsia e fome e promessa
é a carta que nunca chega
é o corpo que nunca pesa
meu poema é terrível por ser morte e doce por ser amante
é ansiedade