Saía o marido para o trabalho e ela se estendia lânguida no próprio tédio. Entre as paredes da grande casa, passava os dias, todos lhe parecendo uma grande tarde modorrenta. No início não era assim: tinha um pequeno jardim nos fundos, o longo gramado na entrada, sabia os pratos favoritos do marido e os preparava com carinho; cuidava, enfim de seu lar. Mas a vida de dona-de-casa não agradava e logo veio a primeira empregada. Depois, o jardineiro, para cuidar da grama onde nunca mais ninguém sentaria. Então a cozinheira, que sempre errava a mão no sal e arrancava diários resmungos do patrão.
Sem o serviço de casa, ela trocou as crises domésticas pelas existencias. Lia revistas sobre roupas de grife e vida simples, espiritualidade e orgasmos. Fazia yoga e relaxamento e, nos fins-de-semana, quebrava dietas e ia ao shopping. Com o passar do tempo, porém, deixou-se deslizar ao fundo da profunda letargia que a rodeava. Passava seus dias deitada em meio a correria dos empregados, distribuindo ordens e gerindo a casa como uma rainha. Contratou homens para preparar seu banho de leite e dar-lhe prazer, e mulheres para cobrir com lençois de seda a grande cama onde deitava-se com os amantes e preparar ricas iguarias que lhe matassem a fome. Saía de seu mundo particular de luxúria apenas para receber o marido, não sem enfado, na chegada do trabalho.
Até o dia em que mandou cortar a cabeça de uma das criadas, por não se curvar em sua presença. Quando o marido chegou em casa, à noite, encontrou a guilhotina a sua espera. Ordens da rainha-mãe da monarquia recém-instaurada.