Posts de Dezembro, 2007

Adeus Ano Velho…

Dezembro 29, 2007

Falando diretamente do Aracati, com um teclado ruim e um mouse pior ainda. Decreto oficialmente minhas férias, ao menos deste blog. As Aventuras do Boneco de Palito continuam rendendo, bem como dois zines em fase de produção. Bom Ano Novo pra todos os compadres e comadres sangue-bom.

O texto aí é do zine “Coisas que habitam no fim do caderno”, que virá à luz amanhã. Não percam, heim?

Trabalhava furiosamente, batendo nas teclas do computador; nem reparou quando a mulher entrou voando pela janela. Ela ofereceu café, mas teve que perguntar ainda duas vezes antes de receber resposta que não, agora não, tô ocupado. A cabeça virada à esposa, mas os olhos apertados fixos na tela.
A mulher olhou-o por algum tempo ainda, balançou a cabeça de leve num gesto de amuo não notado e saiu, batendo os braços, janela afora.
Duas ruas depois, foi atingida por uma pedra de baladeira e caiu, em espirais descendentes.

Entre Natal e Ano Novo

Dezembro 27, 2007

jesuspopstar.jpg

Haverá época mais morgada que essa? Passadas a ceia e a dor-de-barriga do Natal, preparamo-nos para a ceia e indigestão do Ano Novo. Os estudantes já morgaram o começo das férias, os trabalhadores já xingaram o fim do trabalho, os buffets já riram bem alto.

Mas tem uma coisa, não sei se todo mundo reparou. Já notaram que o Natal é cada vez menos Natal? E o Ano Novo? Não quero parecer tradicionalista nem dizer nada que comece com “no meu tempo…”, mas está acontecendo um tipo de mudança de valores. Os feriados já se tornaram, há muito, desculpas para encher a cara e dormir muito. Esse é o caráter principal de todos eles. Tomemos, por exemplo, o natalício de Jesus: até aquele conjunto habitual de clichês (espírito natalino, Deus entre nós, paz e tudo o que nos empurravam infância abaixo nessa época), perdeu muito a força. Ficou tudo mais prático, mais consumível. Mudou alguma coisa ou minha visão é que mudou? Porque não lembro de ter ouvido no dia 25 nenhuma menção ao aniversariante do dia, mas muitas à neve e ao Papai Noel distribuindo presentes na América do Norte. Será que trocaram o motivo da festa e ninguém me avisou? Esse Natal foi o mais violento em dez anos. E a paz na Terra aos que acreditam no Senhor?

Sei não, deve ser a vida moderna…  Durkhein disse que essas festas eram mecanismos para unir a sociedade, reafirmar os laços (citando de memória). Talvez a “desnatalização” do Natal seja um sinal de nosso individualismo pós-moderno (ou seja lá que nome dão a isso), ou simplesmente o modelo a ser seguido pela sociedade tenha se modificado para “mesa com peru, presentes e familiares entediados”. Do significado, nem sombra.

Agora é só esperar e ver se o Ano Novo segue o mesmo caminho ou se ainda existem coisas como promessas para o ano que vem e avaliação do ano que passou. Porque, você sabe, no meu tempo…

http://asaventurasdobonecodepalito.blogspot.com

Dezembro 26, 2007

 As Aventuras do Boneco de Palito, agora nesse blog aí de cima, ó.

Essa é da série “O Natal do Boneco de Palito”, em breve no zine Potóxico 3. Era pra sair antes do fim do ano, mas tem um material que não tá comigo… De qualquer modo, em janeiro sai! Depois posto as aventuras de final de ano do lado de cá.

bonecodepalito12.jpg

Feliz navidad!

Dezembro 23, 2007

- Mas, cara, o que mata meu espírito cristão são essas festas de Natal chatas com gente que eu vejo todos os dias falando as mesmas bobagens de sempre…

-Tem que ter paciência, não se irritar. Nessas horas tenta pensar o que Jesus faria.

-Ah, saquei…

-…

-Mas, vem cá, como é que ele fazia pra água virar vinho?

Fossem reais os pixels…

Dezembro 18, 2007

Não era sua intenção. De verdade. Nem achava coisa assim possível, gostar tanto de uma estranha. Afinal, ela não era mais que um ícone na tela, um enigma. Existia mais em sua cabeça que num real mundo físico. Quis pôr a culpa na suposta sincronicidade que lhe guiou por acaso o olhar até a foto dela, maldizer a vontade de conhecê-la que o assaltou naquele instante. Mas não pôde. A ânsia que doía no peito era dor boa. Sofrer lento de amor apenas imaginado, que chega dava arrepio no avesso.

De qualquer forma, era culpa do sorriso. Um sorriso de rosto inteiro (boca, olho, queixo) que puxava desapiedado o olho dos desavisados pra nunca mais. Tudo se perdia ali, tudo se resumia- alínea ao lado do ponto final, com todo o infinito no meio- no sorriso. Feito o Big-bang.

Quando se falaram a primeira vez (ele fingiu que a conhecia de algum lugar, mas era desculpa), era nada ainda. Frases soltas para passar o tempo. Porém, logo se acostumou àquelas conversas, a enviar galanteios velados e a conferir som aos risos somente escritos- e ela ria muito. Agradava-lhe o escudo da tela, a fascinação de criá-la aos pedaços. Gostar dela, concluiu, era como escrever um romance. Cada linha enviada criando um pouco de vida. Foi se apaixonando aos poucos.

Agora já nem sabia mais que era aquilo, mistura de vontade de vê-la com medo. Medo de quê? De sabê-la gente, mostrar-se gente. Era mais inteligente escrevendo, tinha certeza, saía tudo mais fácil. Frente a frente, corpo em desalinho, fala hesitante, decerto a perderia. Perder o quê, homem de Deus?! Ela era a qualquer coisa de eterno do amor romântico, a amada no alto da torre de cristal. Era toda possibilidade, não mais que isso: uma expectativa perpétua, nunca frustrada e nem tampouco concretizada.

Rota de fuga, ele bem sabia. Coisa de maluco mesmo. Mas sentia-se desenganado. Às vezes, dava-se conta de que moravam os dois na mesma cidade e, de repente, ela era a cidade inteira. Em cada rosto havia um pouco do sorriso da tela, em cada transeunte, a presença possível e irreal certeza. Sabia lá onde ela morava, se pegavam o mesmo ônibus (ou andaria de carro?), se freqüentavam os mesmos lugares…. Sabia lá se não a perderia caso olhasse para o outro lado no sinal fechado.

Procurava instintivamente por cima dos ombros um sorriso que o afogasse. Quando conversavam (ele se conectava para esperá-la e fingir ser o acaso), perguntava sobre ela, afim de absorvê-la. Fazia-se amável, compreensível, até deslizar sorrateiramente a intimidade. Contava o tempo que ela demorava para responder, enciumado. Perguntava-se quantas outras janelas a esperavam, para quem mais ela se exibiria, para quem mais riria em letras maiúsculas, sem pudor. Como podia simplesmente não ser só dele? Não percebia nada?

Até que, uma noite, ela não apareceu. Esperou-a por muito tempo, consciência acesa na madrugada, olhando sem ver as miudezas que acessava só para ter o que fazer. Conjurou demônios, imaginou impropérios, quis esquecê-la, matá-la, possuí-la à exaustão. Imaginava- a, vestido preto, cabelo solto, um vício qualquer na mãos, saindo a noite, vivendo uma implausível, imperdoável vida onde ele não aparecia. Insônia mortal, cravejada de ódio. Quando a viu conectar-se, o nome piscando as 3 da manhã, quis puní-la. Foi frio.

“oi.” “oiiii.” “tô saindo.”

Arrependeu-se na mesma hora. E se… não sei. E se ela fosse mesmo inocente, se não fizera nada demais? Fosse coisa da cabeça dele, estaria sendo um tirano. Ela poderia estar simplesmente vendo TV, estudando, dormindo. Decerto sentiria falta dele e, sem saber de que era culpada, se magoaria. Claro. Ele que era um imbecil.

Para se redimir, criou coragem e marcou um encontro. Dia tal, hora tal, ele de camisa verde, ela usando um par de covinhas no rosto. Era uma terça-feira, acho, e os dois se viram ao mesmo tempo. Ao ver o sorriso nervoso, ele quis falar de seu amor, de seu ódio, das noites insones e quilos perdidos. Mas conteve-se. Conversaram longo tempo de banalidades, sem saber o que fazer com as mãos ou onde pousar os olhos. Quando se despediram, tardezinha (“te mando um scrap”), sentia-se leve como há muito não sentia.

Naquela noite, viu o nome dela piscar na tela. “Just signed in”. Clique. Block contact. Clique. Ela teria que entender, não dava certo. Ela não era bem o que ele imaginava.

Mungazé – Cabruêra

Dezembro 16, 2007

A perseguição dos desejos é algo interminável
Pois a única lei fixa no universo é o movimento.
Fatores externos exercem coerção sobre o ser,
Mas jamais tente mobiliar vosso espírito com concreto.
Pois o concreto, em contato com as barras de ferro retorcidas
da estrutura de nossos aleijos educacionais,
chegará a um momento do tempo
em que não haverá mais tempo para removê-los.
O reflexo da lua no lago é a própria lua?
Rasguemos o Véu de Maya.
Grandiosa é a herança que Pandora nos deixou.
Imaginar não dá dor de cabeça.

Porque é domingo e eu tô sozinho pensando na vida

Dezembro 15, 2007

Sabe, o problema nem é crescer, essa é a parte fácil. Basta deixar o tempo seguir seu curso e te arrastar junto. Crescer não é mais que isso: ganhar centímetros. Difícil é amadurecer, ser relevante para o que te cerca. Trabalhar não parece suficiente, nem ser esponsável, bom aluno, bom filho, saber o que quer da vida. Tem um algo a mais se escondendo por aí, em tudo o que não se fez ou que não se sabe que pode ser feito.

Fosse outro tempo, era mais fácil. Você passava por um rito de passagem, matava um bicho grande, sei lá, e casava aos dezesseis. Pronto. Comida, abrigo, companhia e propósito de existência, tudo mais fácil. E só doía uma vez.

Agora é outra história. Parece que a sofisticação do mundo moderno tem muito a ver com diluir venenos. Diluíram a dor de crescer em vários anos, um despertar longo e algo doloroso. Quando você acha que já passou a parte desagradável de levar foras, descobre que há o sexo. Quando toma a consciência de que é importante estudar e se conforma a oito anos de escola, descobre que ainda vai passar por uma faculdade e trabalhar e se foder, de maneira geral.

Não que crescer seja ruim em si, é bem legal, às vezes- você acaba descobrindo que sexo é muito bacana e as garotas que não te dão fora podem ser bem mais legais que as que dão. Que responder por seus atos é melhor e mais gratificante do que se pensa e que ser uma pessoa boa tem mais a ver com ser gentil com os outros que ir à Igreja todo domingo. Mas é preciso ir de cabeça erguida, com vontade de trabalhar.

É só que tem tanta coisa faltando, coisas que eu achava (ainda acho) importantes. Parar e estar, encontrando o maravilhoso nas brechas da (pós?) modernidade. Anda tão difícil ser, estar, sem mais que isso. Ficar parado é contra a ética protestante (que, longe de protestar, somente perpetua). Queria não me sentir ficando pra trás. Ser feliz sem me exigir, ter direito de ser quem quero sem ter que competir com ninguém.

Os tempos mudaram muito. Matar um bicho grande, hoje, seria um dilema ético, anti-ambientalista. Ninguém mais casa aos dezesseis (mas engravida-se muito). Ritos, só há os de conforto. Quem quer a dor, no fim das contas?

Mas nem era isso que eu queria dizer…

luz no fim do túnel

Dezembro 13, 2007
[esse conto saiu originalmente no zine-de-um-número-só Cheiro de Nada, no meio do ano, mas eu resolvi pôr aqui porque acho muito legal e feliz =) ]

Um dia, tomou uma decisão. Parou de reclamar da vida e de si mesmo, guardou todos os seus sonhos numa sacola de supermercado, trancou-se no quarto e se dedicou a procurar a luz no fim do túnel. Afinal, pensava, já era tempo de acharem a danada.

Primeiro, apagou todas as luzes, que é pra do fim do túnel não passar despercebida. Então saiu à cata, remexendo pessoas e papéis, prometendo só para quando a encontrasse.

Procurou primeiro junto aos grandes teóricos: consultou ensaios, análises, dissertações. Mas logo se decepcionou. Só encontrava teorias.

Então procurou junto aos artistas. Leu livros, viu filmes, ouviu canções e dialogou com idéias. Ficou um pouco mais animado, encontrou a esperança e a liberdade. Mas não era suficiente ainda- a esperança só faz sentido se houver algo a esperar e a liberdade não era mais que um instrumento. Aquestão não era bem essa ainda. Descobriu que o povo precisa de pão, além de poesia.

Decidiu partir para algo mais prático e foi atrás dos economistas. No início, se perdeu um pouco naquela sinalização confusa, cheia de setas, diagramas e indicadores econômicos; mas logo encontrou o que procurava. Ficou impressionado com a organização e objetividade dos dados: IDH em tantos pontos, renda média tal, felicidade a tal preço. Pensou que havia encontrado na Economia a luz do fim do túnel, porém, se viu novamente frustrado. Leu nos dados que túnel era furada, o setor de construção civil estava numa recessão brava. Luz, então, nem se fala: toda nas mãos das companhias estrangeiras, não dava nem pra chegar perto. Aprendeu que luz o fim do túnel é investimento arriscado, inviável com a queda do dólar.

Apesar disso, continuou procurando em todos os lugares, porém sem sucesso.

Tentou a religião, mas teve que fugir de um tiroteio entre fanáticos.
Tentou a oração silenciosa, mas desistiu quando percebeu o quão surpreso ficaria se recebesse uma resposta.

Tentou a política, mas só encontrou expectativas.

Tentou os bares, mas só encontrou desilusão.

Tentou até em si mesmo, mas assutava-o a metáfora que via no espelho.

E, da tal luz, nem fagulha. Até que, de repente, encontrou não a luz, mas o motivo por que não a encontrara. Estivera todo esse tempo trancado no quarto, pensando e pensando sozinho, com todas as luzes apagadas.

E se, pensou, fitando a porta, a luz estiver do lado de lá?

Foi quando tirou os sonhos do saco, saiu do quarto e viu o mundo se estendendo todo lá fora (grande que dava medo)- e lá, num cantinho, a luz do fim do túnel. Ele não conseguira encontrá-la porque deixara a porta fechada.

Dezembro 12, 2007

A salvação do homem é apolítica!
(apocalíptica)
Mas até lá ainda há muito Congresso a percorrer
Democracia a lutar
Anarquia a defender
a salvação ainda está longe
(looonge!)

O homem precisa aprender que só o coletivo faz sentido
Pois quando um homem se afirma ser em outro ser
Ele não é mais um só
E a dois não há solidão
A três não há paz
A cinco não há medo
E muitos…
Dos muitos é a luz que clareia as noites de insônia

Dezembro 11, 2007

Já pensou como seria engraçado se, na verdade, a solução de todos os problemas estivesse num clichê?