Revirando os arquivos, encontrei esse relatório/tentativa de reportagem, que escrevi quando deu um surto de jornalista, no início do semestre. Só por curiosidade, aí vai.
Chegada à Rádio Verdes Mares prevista para as 14:30. Lembrar de usar calça e tênis dessa vez. Ouvidos atentos, olhos abertos e, nas mãos, o bloquinho para eventuais anotações. Após tanto ler sobre comunicação e publicidade em rádio, estava ansioso para conhecer tudo de perto.
De início, fomos conduzidos a uma grande sala, que parecia menor do que era por causa da grade que a dividia ao meio. Do lado de cá da grade, cadeiras verdes a nossa disposição. Do lado de lá, três mesas: uma repleta de microfones, uma grande mesa de som e a mesa alta com telefones (onze no total). À mesa dos microfones, o apresentador João Inácio Jr. lia com ímpeto uma grande mensagem sobre o pensamento positivo. Com ouvidos atentos, seu público deveria estar bebendo as palavras que fluíam do rádio- palavras de encorajamento, para suportar o trabalho pesado e as
dificuldades da vida. “Tudo vai dar certo”.A voz possante prendia a atenção. Logo, porém, o apresentador finda sua mensagem e entra no ar uma música de forró.
A sincronia com o técnico de som é incrível, não há nenhum momento de silêncio no programa e tampouco vozes se atropelando. A sincronia no rádio, já disse Ciro Pedroza, é
fundamental. Tudo tem que estar no devido lugar, no tempo exato. O silêncio angustia.
Vimos isso de forma fantástica com o radialista Beto Porto Alegre, a quem visitamos em seguida. Com habilidade surpreendente, é ele, sozinho, quem comanda o programa, locução e mesa de som. Multiplica-se ao conversar conosco, falar ao microfone com uma voz estrondosa, ler
suas pautas e inserir todos os sons e vinhetas no momento adequado. Fala sobre ser publicitário, nos0 deseja sorte. De rádio, conversamos pouco, vimos muito. Impressionante.
De volta ao estúdio do programa de João Inácio, o vemos- ou melhor, o ouvimos conversando com os ouvintes. Gente de voz simples que trata o locutor como amigo: lhe manda
abraços, sente a perda da Tigresa, morta durante uma lipoaspiração. O clima é de total intimidade; afinal, o rádio inventou a interatividade antes mesmo de ser inventado o próprio conceito. Os ouvintes brincam, interagem com o gaiato personagem “seu” Jereba, que serra chifres e distribui
abraços por trás, tudo usando de uma linguagem chula e um enxerimento de moleque. As ligações são para escolher a música do dia e trazem uma surpresa: a canção vencedora é um brega a moda antiga, de Baltazar. Algo diferente entre tantos forrós que ouvimos todos os dias.
Depois, João lê outra mensagem, mas não antes de fazer seus anúncios. A voz amiga, íntima de todos os dias, recomendando um produto como quem aconselha. O locutor confere credibilidade a propaganda. Impossível não lembrar do trabalho sobre os comerciais da a.m. Jingles,
testemunhais, peças de promoção… tudo ali, acontecendo fora do papel e além das teorias. Uma experiência e tanto ver uma rádio funcionando depois de tanto estudar sobre o assunto.
E, entre mensagens e comerciais, João transmite notícias. Nada mais que fofocas e ocorrências curiosas. Assim entretém seu público, com mensagens positivas e divertimento inócuo. Mass media? Provavelmente. Mas João não parece subestimar seus ouvintes. Pelo contrário, sua
atitude é de cumplicidade, como uma bobagem que se diz numa roda de amigos e não pretende mais que provocar risadas fáceis. Sem se falar em alienação. Lembro que o discurso de rádio é exatamente isso: espontaneidade. Um discurso artificialmente natural.
E João é bom nisso. Dividindo a cena com Regina e Cláudia, portadoras de notícias dos famosos, usa e abusa de “seu” Jereba, brinca com as mulheres e vai desenhando seu programa no improviso, impecavelmente sintonizado com o técnico de som. Talvez aí esteja a chave do comunicador de rádio. Talvez não seja tão artificial sua espontaneidade.
O programa vai até às quatro da tarde. João deixa o estúdio sob aplausos nossos. A despeito de qualquer discussão sobre alienação, é um grande comunicador. Levo comigo as lições
que consegui apreender assistindo sua atuação e as idéias que se vão enrodilhando em minha cabeça sobre trabalhar com rádio. Quem sabe, algum dia…