Morte, o grande momento da vida

Abril 18, 2008 by Márcio
Hazel: Posso fazer uma pergunta boba?
Morte: Claro, manda.
Hazel: É mais de uma pergunta. Olha… hã… Por que a gente sofre? Por que morremos? Por que a vida não é sempre boa? Por que não é justa?
Morte: Essas não são perguntas idiotas, Hazel. Para algumas pessoas, são as únicas que importam.
Hazel: Significa que não vai responder?
Morte: Claro que vou. Mas é um assunto muito amplo, e há várias respostas. E as respostas não significam nada… Não são perguntas idiotas, mas é como perguntar: ‘Quando é roxo?’ ou ‘Por que a quinta-feira?’, se é que me entende…
Hazel: Não muito.
Morte: Bem. Acho que, em parte, tem a ver com contrastes. Luz e Sombra. Se você nunca viver dias ruins, como vai saber se viveu dias bons?
Morte: Mas em parte é só o seguinte: Se você vai ser humano, tem um monte de coisas que vem junto. Olhos, coração, dias e vida.
Morte: Mas são os momentos que iluminam tudo. As vezes que você nem percebe quando está vivendo… É isso que faz o resto ser importante.”
Neil Gaiman

Prólogo

Abril 16, 2008 by Márcio

Márcio diz:
se tu não for por causa disso, vai ficar chateada porque, vê só, é uma coisa que tu não fez por causa da tua mãe. Isso vai ficar em ti, vai crescer e se transformar numa raivinha assim, de impaciência, que pode crescer e crescer e crescer… um dia todas as raivinhas podem se juntar e explodir e acabar com a relação tão bonita de vocês
Keka. diz:
oO’
Márcio diz:
mas se você for, vai ficar tão feliz e contente que nem vai ligar pras coisas que ela vai dizer
Márcio diz:
na verdade, vai achá-la bonita e legal e, boa mulher, está só preocupada contigo
Márcio diz:
aí vocês vão ser felizes pra sempre
Márcio diz:
(e eu vou pro inferno por fazer esse papel de cão)
Keka. diz:
ai, ai.. tu é muito queixudo, viu? tsc tsc

___
tudo tem um começo mais ou menos sem-querer

La buena educación

Fevereiro 12, 2008 by Márcio

Talvez, se dissessem mais “bom-dia”, russos e americanos tivessem se entendido melhor.

Talvez, se pedissem licença, a história das Colonizações fosse outra.

Talvez, se pedir desculpas não fosse tão difícil, alguns países não se odiassem.

Talvez, se tivessem perguntado a muitos ditadores se estavam bem, houvessem menos feridas no mundo.

Talvez, se houvesse mais cortesia, a humanidade fosse mais humana.

Fevereiro 10, 2008 by Márcio

“alana says:
se ela num quiser, tu vai-se embora comigo
e a gente casa um drive-thru em las vegas”

sei lá o que eu faria sem ela

Bela esbórnia

Fevereiro 1, 2008 by Márcio

 Uma compreensível impaciência pra esse blog. Bem, de qualquer modo, rinite sempre me deixa meio surrealista. Mas olha só, depois do feriado eu conto tudo. Ouve aí, que é legal.

Alcatraz Song

Fellini

 

- Não, eu não quero sopa de pato.
- Is Your Friend A Crazy Chicken?
- Não sei… É o mundo das sombras chinesas…
- Um lugar, no entanto, bastante prosaico…
- …que você pode guardar numa casca de noz…
- …ou debaixo da sola do seu sapato…

(Bela carranca
na TV por cabo…
É…
de novo!
Uma vez só é pouco)

Eu sei, não é fácil
Você fez aquela famosa viagem de gaiola
pelo São Francisco
E agora…Alcatraz, cercada de bandidos por todos os lados…
Como é que você se sente?
Uma condessa de Hong Kong?
Uma condessa descalça?
Uma condessa cada vez mais longe?

(Bela carranca
na TV por cabo…
É…
de novo!
Uma vez só é pouco)

Conversas

Janeiro 31, 2008 by Márcio

-Ó, aquele ali é Saturno.
-Aquele com os anéis?
-É.
-…
-Bonito, né?
-Parece uma logomarca!
-…
-…
-Putz! é mesmo!

Ansiedade

Janeiro 22, 2008 by Márcio

Quero escrever um poema que tenha somente o começo
e se estenda em significados pelo infinito.
Que carregue em si o frio de nervoso
na barriga e aquela inebriante ansiedade
obsessiva que dá antes de se saber no chão.
Meu poema terá em si o mistério dos olhos cegos
e a intenção dos que se escondem atrás de óculos escuros
e a dúvida do toque, talvez acidental, dos joelhos que se encontram.
Terá sabor de insônia e o som da ilusão
(algo como vidro em solo de clarineta)
e um travo de desespero em suspensão.
Ah, sim, meu poema será belo como nunca houve
porque, de fato, não há de existir.
Meu poema é o que se espera
feito de ânsia e fome e promessa
é a carta que nunca chega
é o corpo que nunca pesa

meu poema é terrível por ser morte e doce por ser amante
é ansiedade

Nem sei

Janeiro 18, 2008 by Márcio

Ontem tava arrumando o quarto, desencavando gavetas e tirando o pó das memórias. Muita coisa do Evolutivo, muita coisa do CEFET. Meu primeiro conto, de 8 páginas, sobre um dragão. Cartas antigas. Textos que nem parece que eu escrevi. Um diário que não resistiu a minha indisciplina (de rotina e de sentimento).

Arrumar o quarto é uma coisa em si tão simbolizável e metafórica e já se falou tanto sobre isso que não me ocorre nada mais a dizer. Só que me livrei de uma caixa cheia de papel e isso não pesou nem elevou nada em mim. Foi mais como transladar os ossos de velhas lembranças. Mas chamou a atenção a asa de borboleta jogada num canto do quarto, sobre a sujeira. Me pergunto se a dona simplesmente a perdeu por lá ou se era mesmo um pedaço de uma lembrança qualquer que me escapou da cabeça no redemoinho de papel. Seja como for, foi para o lixo, com a poeira. Espero que me desculpe um dia.

Rainha do Lar

Janeiro 15, 2008 by Márcio

Saía o marido para o trabalho e ela se estendia lânguida no próprio tédio. Entre as paredes da grande casa, passava os dias, todos lhe parecendo uma grande tarde modorrenta. No início não era assim: tinha um pequeno jardim nos fundos, o longo gramado na entrada, sabia os pratos favoritos do marido e os preparava com carinho; cuidava, enfim de seu lar. Mas a vida de dona-de-casa não agradava e logo veio a primeira empregada. Depois, o jardineiro, para cuidar da grama onde nunca mais ninguém sentaria. Então a cozinheira, que sempre errava a mão no sal e arrancava diários resmungos do patrão.

Sem o serviço de casa, ela trocou as crises domésticas pelas existencias. Lia revistas sobre roupas de grife e vida simples, espiritualidade e orgasmos. Fazia yoga e relaxamento e, nos fins-de-semana, quebrava dietas e ia ao shopping. Com o passar do tempo, porém, deixou-se deslizar ao fundo da profunda letargia que a rodeava. Passava seus dias deitada em meio a correria dos empregados, distribuindo ordens e gerindo a casa como uma rainha. Contratou homens para preparar seu banho de leite e dar-lhe prazer, e mulheres para cobrir com lençois de seda a grande cama onde deitava-se com os amantes e preparar ricas iguarias que lhe matassem a fome. Saía de seu mundo particular de luxúria apenas para receber o marido, não sem enfado, na chegada do trabalho.

Até o dia em que mandou cortar a cabeça de uma das criadas, por não se curvar em sua presença. Quando o marido chegou em casa, à noite, encontrou a guilhotina a sua espera. Ordens da rainha-mãe da monarquia recém-instaurada.

Voltando nos passos

Janeiro 12, 2008 by Márcio

De volta ao Aracati e daqui pra Fortaleza, após minha breve e proveitosa estadia em Mossoró, terra do pastel no café da manhã, do sanduíche de coxinha, do cachorro-quente de meio quilo e do arroz de leite com paçoca.

Não sei vocês, mas minhas férias em geral se dividem em três estágios. Primeiro, aquela letargia braba de uma semana, repleta de sono e do consumo desenfreado de livros e DVDs. Depois, vem a coceirinha no avesso da cabeça- aquela vontade de nem-sei-o-quê de onde nascem contos, desenhos (ainda que de palito) e fanzines. Não à toa, depois das férias eu tenho uns dois ou três zines novos, sempre. E, por fim, vem a fase que parecem férias mesmo, com praia, bola de vôlei, areia no calção, primos malas e todo o sonho burguês de descanso e relaxamento.

Essas férias foram as primeiras em que aconteceu tudo diferente. Digo, não exatamente diferente, mas com algo a mais. Afinal- e isso deve ser sintoma de crescimento- pela primeira vez as férias não parecem o fim nem o começo de nada. São só um pedaço do grande todo que vem a ser meu futuro. Trabalhei, ganhei dinheiro, viajei, dormi pacas… mas com outros olhos, de outro jeito.

Difícil de explicar… Como todas as grandes mudanças, essa aconteceu só na minha cabeça. Mas, você bem sabe, se mudar seu jeito de ver o mundo, o mundo todo muda, nem que seja só pra você.